27.12.10

a la caeiro

                                                             para vitor ramil


noite de verão
para além do escuro do grande mar
do lado de cá
eu sem noite de verão
porque há verão onde o celebram
para mim há uma lembrança da luz
de grilos na noite
um ruído invernal
o barulhinho da traça
e o silêncio usual
de quem não sabe que eu existo

24.12.10

se eu fosse carlos drummond de andrade

hoje eu teria escrito:   Papai Noel às Avessas

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.
Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai  entrou compenetrado.
Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.
Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do  aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

Este poema foi publicado no livro
"Alguma Poesia",
Editora Pindorama, em 1930, primeiro livro do autor.  Texto extraído de "Nova Reunião", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1983, pág. 24.

23.12.10

a volta


quando pude retornar à minha cidade natal, após a queda do muro, 22 anos depois de ter saído, quis procurar os lugares da minha infância, onde tinha vivido com minha mãe, que morrera tão jovem. o lugarejo estava muito mudado. reconheci as ruas, claro, e alguns prédios que permaneciam iguais. quis rever a paróquia do local, onde todos os domingos minha mãe me levava à missa. meu irmão tentou me preparar, avisando que a igrejinha não era mais a mesma, que havia sido reformada. não me importei, quis entrar mesmo assim. de fato ela estava muito mudada. mas os bancos de madeira ainda eram os mesmos da minha infância. e naquela madeira estavam impressas a mão da minha mãe sobre meu ombro na entrada da igreja, a sua voz suave durante os cantos litúrgicos e suas lágrimas durante as orações pelos familiares. revivi tudo em segundos. e a minha dor, a minha dor, de ter perdido minha mãe tão jovem, de ter deixado aquele lugar em busca de algo que nunca encontrei, toda aquela dor eu esmurrei ali mesmo, de joelhos, junto com minhas lágrimas, no chão de pedras da igreja.

20.12.10